Um estudo da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Viseu (ESTGV-IPV) revela que, apesar de crescerem num ambiente altamente digital, os jovens portugueses continuam a depender do apoio humano e da escola para aprender a gerir o seu futuro financeiro.

Publicado recentemente na revista científica Computers, o estudo traz um alerta relevante sobre o futuro económico das novas gerações. Os quatro investigadores da ESTGV, Manuel Reis, Tiago Miguel, Paula Sarabando e Rogério Matias, analisaram a literacia financeira de estudantes universitários, e os resultados indicam que o contacto humano em contexto de sala de aula desempenha um papel central — sendo percecionado como mais eficaz do que algoritmos ou aplicações digitais.

O Desafio: Uma Realidade Silenciosa

O estudo aponta para um cenário preocupante: muitos jovens portugueses chegam ao ensino superior com níveis reduzidos de literacia financeira. Após anos de escolaridade obrigatória com pouca ou nenhuma exposição estruturada ao tema, vários estudantes sentem-se “desarmados” perante decisões financeiras do dia a dia.

Há, contudo, duas notas de esperança. Por um lado, os próprios estudantes reconhecem a importância desta competência e defendem a sua integração no currículo, revelando uma motivação clara para aprender a gerir o dinheiro de forma mais consciente e responsável. Por outro, o Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) tornou obrigatória, a partir do corrente ano letivo, a abordagem de temas de Literacia Financeira e Empreendedorismo em todos os anos do ensino básico e secundário. Importa referir que o estudo é anterior a esta decisão do MECI, o que, no fundo, a valida.

A Chave do Sucesso: O Fator Humano

Os resultados desafiam a ideia de que as soluções digitais, por si só, são suficientes. Quando questionados sobre as abordagens mais eficazes, os estudantes foram claros: valorizam sobretudo métodos de ensino com acompanhamento direto por professores, destacando a formação presencial.

Em contraste, abordagens baseadas exclusivamente na aprendizagem autónoma — como aplicações ou conteúdos digitais isolados — são percecionadas como menos eficazes para promover mudanças reais de comportamento.

“Não basta introduzir a literacia financeira nos currículos — é fundamental garantir condições para um ensino de qualidade, com impacto real nos comportamentos dos jovens”, sublinham os investigadores.

Um Guia para o Futuro das Escolas

Num momento em que Portugal avança para a integração obrigatória da literacia financeira no ensino básico e secundário, este estudo aponta caminhos para uma implementação eficaz. O sucesso não dependerá apenas de novos conteúdos, mas de três pilares fundamentais: investimento na formação de professores, desenvolvimento de materiais pedagógicos dinâmicos e adoção de metodologias ligadas ao quotidiano dos alunos.

Na opinião dos autores, a decisão do MECI em tornar obrigatória a abordagem de temas de literacia financeira é acertada, considerando que o modelo adotado (envolvimento de estudantes de alguns cursos do ensino superior, devidamente orientados e suportados em materiais preparados por especialistas nos diversos temas) é muito interessante e tem a vantagem de conseguir atingir o objetivo de forma rápida.

Ainda assim, defendem que talvez seja mais saudável e prudente, em paralelo, investir na formação de professores do ensino básico e secundário, uma vez que parece ser uma solução mais sustentável a prazo – por exemplo, através de formação acreditada a ministrar por Centros de Formação ou outras entidades credenciadas.

Mais do que um contributo académico, este trabalho apresenta-se como um possível guia para escolas e decisores políticos, com o objetivo de preparar melhor os jovens para uma vida adulta mais informada, segura e com maior consciência financeira.